quarta-feira, 28 de junho de 2017

Um dia eu me afoguei

Foto: Katie Joy Crawford

Um dia eu me afoguei. Não foi como quando se aprende a nadar e engole um pouco de água, foi a sensação de ter uma parte importante se esvaindo, de não mais ser capaz de controlar o próprio corpo, não mais era dona da minha respiração. Não me afundei em uma piscina, tão pouco em águas abertas, me perdi em ansiedade, deixei que ela me dominasse a ponto de não mais conseguir emergir sozinha. Assim dei entrada no hospital, depois de um quase dois dias sem comer, vomitando tudo que eu não mais era capaz de aceitar ou digerir. Não era fisiológico, o quadro: transtorno de ansiedade. Minha mente tinha vencido o corpo.

Uma série americana chamada Suits me fez um enorme favor e representou em detalhes os meus ataques de pânico. O personagem principal, o poderoso advogado Harvey Specter, no início de uma das temporadas, sofre uma crise de ansiedade, passa a dormir mal, tem pesadelos recorrentes e episódios de pânico que o fazem ficar tonto, enjoado e vomitar. Me vi ali, em detalhes, até as broncas da terapeuta eram as mesmas. Sim, até o mais poderoso dos advogados pode ter transtorno de ansiedade. Ficou mais fácil explicar o que eu tive e entender que o problema era, e é, uma questão de saúde pública, não só meu.

Aprendi uma metáfora bastante elucidativa com um dos grandes profissionais que conheci, exemplifica perfeitamente o que é a ansiedade. Ela não é vilã, pelo contrário, ela nos é útil, nos deixa alerta, com sistema sensorial mais apurado. Veja a cena: noite, escuro, um beco, você está sozinho e vem dois homens com facas; sua ansiedade é bastante necessária, perigo iminente. Mas precisa estar funcionando bem. Pense no alarme de um carro, ele é feito para disparar em situações adversas, de risco, mas se passa a disparar quando um passarinho canta, está claramente desregulado.  Eis o transtorno, a ansiedade fora de controle.

Muito mais que entender tudo isso é admitir que assim como não há osso que não quebre a uma determinada tensão, também não há mente que não rache a determinados níveis de stress. Mas aprendemos a ignorar os sinais do corpo, eu aprendi pelo menos, porque eu precisava ser invencível, não importasse a adversidade. Abri o peito para tudo, sem muita defesa, até punção para checar um tumor na mama eu fui fazer sozinha, afinal o problema era meu, eu tinha que resolver, mais ninguém precisava ser envolvido. E fui assim a vida toda, carreguei todas as minhas pedras e cruzes sem pedir apoio, mesmo que o suporte estivesse pronto pra mim.

Com ego destroçado e moral no chão eu me fechei em um micromundo e quando uma semana depois eu finalmente recebi alta eu não tinha certeza se queria ver o mundo, se queria voltar à realidade. Ali, paralisada de medo naquele corredor, pensando que nunca mais eu iria me recuperar, nunca mais seria forte de novo. Me vi com cinco quilos a menos, alguns hematomas de veias estouradas e aboluto pavor de dormir. De lá direto pro consultório da psicológa, admiti que sozinha seria impossóvel.

Venci meus preconceitose encarei a sala de espera de um psiquiatra, mal sabia o quanto eu ia aprender naquela sala. Precisei aceitar quando ele disse que eu precisaria de remédios. Admitir que logo eu, que nem alcool bebo, ia precisar de drogas para dormir e para acordar. Mas a hora de dormir tinha virado um pesadelo, era disparada a pior hora do dia, a condição me fez aceitar. E com toda a calma que lhe foi peculiar, ele me explicou que era um perfil que precisava de alterações, minha força ainda estava no mesmo lugar, por mais que eu duvidasse bastante.

Nunca soube ser meio, sempre fui pro enfrentamento, tudo ou nada em todas as situações. Nunca fui boa em confiar nas pessoas, não confiar me protegia, ou essa era a minha lógica. A verdade é que tentei responder por mim e pelos outros o tempo todo, me decepcionei incontadas as vezes e ignorei todas elas. Errar nunca me foi permitido, eu nunca aceitei. A necessidade de controle e de informação se tornaram profissão, prever variáveis, planejar. Construí um muro bastante alto ao meu redor, fiz uma fortaleza em mim, até que ela foi ruindo, porque ser ilha é uma ilusão. E ninguém quer falar que quebrou, ninguém quer ser vulnerável, eu não queria.

Dedici retomar o meu controle, olhar pra dentro em vez de culpar o Universo. Reconheci minhas falhas, fui eu que me coloquei naquele hospital. Parei de fugir, vivi meus conflitos, encarei meus demônios, magoeei algumas pessoas pelo caminho, mas era uma trajetória que eu precisava atravessar. Recebi muito conforto, nem sabia que tanta gente se importava comigo e essa parte é algo que não se esquece, cada mensagem, cada ligação, cada visita. Lembro em detalhes do dia que consegui voltar ao trabalho e a crise de choro na entrada do prédio, um misto de alívio e pavor.


Ironia ou não, de tanto querer controlar tudo, eu perdi o controle. De tanto me forçar a ser sozinha, precisei de um monte de gente. Eu deixei a água da ansiedade subir, mas também fui eu quem fez ela descer. Tive uma rede de excelentes profissionais ao meu redor. A proteção que eu achava tão capaz de me prover veio de fora. Me achei de volta no meu mundo, reconstruí meu mundo. Um ano e meio depois, já livre dos remédios, com alta, entendo o quanto o processo foi doloroso, é verdade, mas absolutamente necessário. Fiz as pazes com a coragem, achei força pra não mais submergir. Me despi de muito preconceitos, me livrei de peso que eu carregava sem precisar. Me fiz leve. Um dia eu desafoguei. 

terça-feira, 27 de junho de 2017

Nasci sozinha

Nasci sozinha, logo preciso me virar sozinha. Essa sempre foi a minha lógica, um pragmatismo maior que eu. Esperar de forma alguma, sou fazedora, aguardar é ser passivo e paciente e paciência eu vim até sem pra essa vida. Chorar vai resolver? Não. Gritar vai resolver? Não. Então, para, respira, se movimente e por favor não choraminga.
Nasci filha única, em uma família que a independência é muito importante. Da minha mãe eu ouvi a vida inteira "case primeiro com o seu trabalho". Meu pai sempre deixou muito claro que a preocupação era com a minha educação. Casamento e firulas nunca foram temas recorrentes. O médio nunca foi tolerado. Minha dose de mimo de única criança veio do meu avô, esse sim fazia um bocado das minhas vontades, mas lá em casa o bicho pegava. 
Democracia nunca foi bem o regime da casa, apesar de pedagoga, minha mãe preferia Pinochet a Piaget. O que não me impedia desde muito cedo demonstrar minha personalidade turrona, respondona e briguenta. Mas ela contornava, dava a última palavra, "adoro ser chata", e fim. Até hoje não tenho nenhum problema em lidar com conflito, a arte da argumentação eu aprendi foi no berço.
Meu pai gritou comigo uma vez só, mas lembro sem saudade e sei muito bem quem foi a culpada. Os meus olhares tortos vem desse lado do DNA, bastante fácil reconhecer os descontentamentos dele. As perguntas respondidas me mandando procurar no jornal ou achar o dicionário me irritavam profundamente, mas me fizeram bastante diferença na faculdade.
Fui criada pra ser aquela mulher que "homem nenhum quer", como diziam os textos de revistas para moças. Não tem nada que eu não seja capaz de resolver sozinha, trabalho muito e gosto da minha rotina maluca, não sei depender. Sei mais palavrões que um estivador e os acho absolutamente libertadores e insubstituíveis. Não me sinto obrigada a manter a carinha de feliz em canto algum, muito menos de estar sempre acompanhada. Não sou para amarras. 
Mas aprendi, a duras penas, que não é porque posso fazer tudo sozinha que preciso ser um o tempo todo. Que pedir ajuda não é sinônimo de fraqueza. Que liderança é inata, mas não precisa ser onipresente. Nunca soube bem demonstrar que não queria ser um, a contar pelos meus incontados fracassos amorosos, quando algumas vezes eu me arrebentei de sofrer e anos depois escutei "mas você nunca me deixou chegar, eu não fazia ideia".

Entendi melhor sobre empatia, isso só se aprende vivendo, não tem livro que explique. Descobri há muito pouco tempo que vulnerabilidade não é exatamente nocivo. Nunca vou ser a mulherzinha, o estereótipo, nasci sozinha e até gosto bastante da minha individualidade, de ser vento. Mas só agora talvez eu saiba parar, respirar, me movimentar, e me deixar choramingar também, agora é permitido. Posso ser um em dois, em três ou com uma porção de gente, percebi que o caminho pode ser mais simples. Por favor, choramingue.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

É preciso coragem

Nessa minha vida de leituras aleatórias eu tenho reparado em como escrevemos mais com um coração partido, pelo menos eu escrevo mais, e a contar pelo comportamentos de alguns outros autores acho que posso afirmar minha impressão. É como se a dor pudesse ser amenizada ao transportar para o papel o que não cabe em si. No meio do sofrimento, quando parece que a água da ansiedade só sobe e brevemente vai nos afogar, quando tudo perde proporção e sentido, escrevemos. Mas é aí que reavaliamos, repensamos comportamentos, que sentimos o bichinho da mudança. Mas pouco conversamos sobre recomeços, porque mesmo com toda poética e infinitas possibilidades, reiniciar é absolutamente assustador.

Muitissimo mais fácil se manter no conforto de um lugar-comum, mesmo que aos pedaços e meio falido, porque colocar o pé pra fora e se jogar no novo, sem saber muito bem o que esperar, empurrar a porta é para os que tem muita coragem. Acho que todo mundo já enfrentou um tempinho a mais em uma relação fracassada por medo da solidão, ou até pelo menos estar pronto para encarar um salão sozinho de novo.

Eu já coloquei pontos finais algumas vezes, em outras colocaram o final por mim. Algumas histórias eu insistia em não querer terminar. Sempre fui de ficar, permanecer até que a última chance escorresse, porque aí eu ia embora de vez, mas ia com certeza de que pelo menos a minha parte eu tinha cumprido. Um jogo bastante sofrido, confesso, mas é o ônus da minha passionalidade.

Agora nesse negócio de recomeçar sempre engatinhei, levo muito tempo me livrando do antigo, criando novos espaços e me desfazendo da toda a tralha emocional. Passo por um imenso ritual e viro uma criatura bastante medrosa, gato escaldado com medo até de água fria mesmo, dessas que prefere não se arriscar e vai minando possibilidades porque a lembrança da ferida ainda é latente. Nenhum problema com o tempo, se não fosse perder um bocado de gente bacana estacionada no que passou.

Sempre morri de inveja do pessoal que tem um amor da vida por semana, que se apaixona perdidamente com duas trocas de olhares, faz juras de amor infinito, aí não da certo, termina, se acaba em lágrimas, diz que vai morrer e semana que vem se apaixona de novo. É muita coragem. Eu levo uma eternidade pra me apaixonar e acho que duas pra desapaixonar. Também invejo o pessoal que abandona carreira e muda tudo porque resolve que quer fazer outra coisa, viver em outra cidade, país ou sei lá virar monge. Invejo o desapego.


É preciso ousadia pra bater a porta sem olhar pra trás, mas é preciso ainda mais pra não voltar e abri-la, porque na hora da dúvida essa vontade de correr pro conhecido chega, as vezes chega forte. E vem o tempo para procurar novas portas por aí,  de saber a hora de pedir ajuda, de engolir o orgulho, de aprender a ouvir e mais que tudo se permitir mudar. Perdemos muito tempo sendo deterministas, eu perdi muito tempo assim, levando opiniões a ferro e fogo, me cobrando coerência e me engessando. A maturidade (e a terapia) me trouxe muito mais flexibilidade, somos muito menos caretas aos 30 que aos 20, como li outro dia. E sobre a solidão, eu sempre gostei muito da minha companhia, mas descobri que não preciso ser só um o tempo todo. Coragem mesmo é saber recomeçar, ando me encontrando com a minha, talvez até dando uns passinhos. Reiniciar é assustador, mas tem lá sua diversão também.

quarta-feira, 8 de março de 2017

Que sejam direitos, não sonhos

Exposição no Canal do Panamá, 2016
O 8 de março é celebrado oficialmente como Dia Internacional da Mulher desde 1921, mas apenas em 1945 a Organização das Nações Unidas assinou o primeiro acordo internacional que afirmava princípios de igualdade entre homens e mulheres e só em 1977 a data foi reconhecida pela entidade. As lutas femininas são anteriores a ambas as datas, os primeiros grandes protestos são ainda do século XIX em meio às péssimas condições de trabalho pós-revolução industrial.

A luta por igualdade de direitos não é nenhuma novidade no cenário mundial. O Banco do Brasil tem em sua agenda a equidade de gênero, segundo matéria veiculada na agência de notícias apenas 11,7% das funções consideradas de comando (presidente, vice-presidentes, diretores, gerentes executivos e superintendentes estaduais e regionais) são ocupadas por mulheres. Segundo dados da Febraban, é o menor percentual entre os maiores bancos brasileiros. E o reconhecimento desta desigualdade é o primeiro passo para mudá-la.”

A importância desse reconhecimento da empresa já era explicada pela autora francesa, e conhecida feminista, Simone de Beauvoir: “É pelo trabalho que a mulher vem diminuindo a distância que a separa do homem, somente o trabalho poderá garantir-lhe uma independência concreta”.  O filosofo Mario Sérgio Cortella explica que feminismo não é o contrário do machismo, diferente ele não pressupõe que mulheres são superiores, mas sim que são iguais.

É preciso falar de feminismo, discutir aquilo que incomoda, a demonização do movimento não contribue com a inclusão de importantes pautas na agenda pública. O mundo vem entendendo aos poucos. O prêmio Nobel de literatura de 2015 foi dado a escritora e jornalista bielorrussa Svetlana Alexiévitch, de 67 anos, ela foi a 14ª mulher a vencer o prêmio em 114 anos. Uma das raras autoras de não ficção premiadas com o Nobel, escolhida por dar voz às mulheres soviéticas que lutaram na Grande Guerra.

O 8 de março deve ser visto como momento de mobilização para a conquista de direitos e para discutir as discriminações e violências morais, físicas e sexuais ainda sofridas pelas mulheres, impedindo que retrocessos ameacem o que já foi alcançado em diversos países. O Brasil registrou, nos dez primeiros meses do ano passado, 63.090 denúncias de violência contra a mulher - o que corresponde a um relato a cada 7 minutos no país. Segundo o último mapa da violência contra a mulher, foram contabilizados 4,8 assassinatos a cada 100 mil mulheres, número que coloca o Brasil no 5º lugar no ranking de países nesse tipo de crime. Entre 2001 a 2011, estima-se que ocorreram mais de 50 mil feminicídios, em média, 5.664 mortes de mulheres por causas violentas a cada ano.

Há muitos avanços a serem comemorados, mas ainda há muito que prosseguir. Nunca consegui explicar a um homem a enorme diferença entre cantada e assédio ou o que é temer que o corpo seja violado. Ficar apreensiva ao passar por um grupo masculino ou a absoluta indignação quando a justificativa é o instinto masculino ou os trajes “convidativos” femininos. Quem não controla instinto é bicho, fim da discussão. Por mais que articule bem as palavras, algumas questões são absolutamente sensitivas, não há como descrever, nem por isso devem perder legitimidade.

Nesse Dia Internacional da Mulher, entendo o quão gosto da mulher que me tornei, por ter consiguido percorrer todo o árduo caminho com a cabeça erguida, agradeço minhas matriarcas, por vir de uma família com mulheres fortes há muitas gerações. Honro todas as que vieram antes de mim, em suas lutas diárias, por toda coragem, por determinação, pelas conquistas. E me apego a esperança, para que nossas meninas não mais precisem discutir equidade, que liberdade, educação, trabalho e dignidade sejam direitos, não sonhos.

“Que nada nos defina. Que nada nos sujeite. Que a liberdade seja nossa própria substância.” 
(Simone de Beauvoir)

Feliz Dia Internacional da Mulher!!!

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

...Os lembrados esmaecem limites...

A história pode ser definida como “um corpo de fatos verificados” (E.H Carr). Ela é ainda necessariamente escrita a partir de posições do presente, cada geração tem sua própria visão do processo histórico, por isso frequentemente a reconstruímos, lançamos novos olhares, revisitamos bibliografias e documentos. Esse constante trabalho historiográfico constrói a identidade coletiva e ela pode ter a memória como elemento essencial, com toda liberdade e possibilidades criativas que lhe são peculiares. A memória carrega consigo a narrativa, o esforço em fazer surgir o que estava imerso. É subjetiva, parcial, traz cheiros, sabores, imagens, perpassa o material. “Os acontecimentos vividos carregam consigo a finitude, ao passo que os acontecimentos lembrados esmaecem limites” (W. Benjamim)


E num emaranhado de memórias relembradas no auditório da escola eu conheci meu pai menino. Não o homem grande, forte e sério que me acostumei ao longo dos meus 30 anos, mas um garoto, que em meio às paredes do Colégio Batista Daniel de La Touche voltou a ser a criança de anos antes. O portão verde, o muro alto, a quadra que virou ginásio, o prédio que ganhou mais um andar, as grades que não existiam. Assim, ele, 35 alunos e sete professores me contaram suas lembranças. Meu pai me deixou entrar na memória dele, em suas saudosas e carinhosas recordações. O orgulho da escola, dos amigos e de tudo que recebera ali fez com que ele me levasse numa viagem de 2 mil km e por uns 50 anos de história, ou mais, talvez.
Ao vê-lo entrar pelo portão, assisti um sorriso infantil, de tantos que reconheço nele, um que nunca tinha visto. Ao rever os amigos a euforia foi coletiva, eram jovens de novo. Invertemos o papel, a duras penas consegui algum resquício de ordem em meio à erupção de sentimentos. Bagunçaram, falaram alto, contaram piadas e histórias. 40 anos depois o professor de genética descobriria enfim quem lhe dera o apelido.O carinho do gentil professor de educação física que se emocionou e agradeceu em ter uma sala recheada de pessoas que ele ensinou, que era o maior presente que poderia receber. No auge de seus 87 anos, o diretor que lembrou o papel educacional da família e da escola e estampou o orgulho em olhar para a turma de 1976. Uma turma especial, que formou, na fala de seus tutores, mais que grandes profissionais, grandes homens e mulheres.
Naqueles discursos eu me emocionei, estudei a muitos km de distancia, mas ali eu assisti uma parte da minha história, eu vi quem formou o meu pai. Em um discurso inflamado e tomado de paixão, o agora procurador, na época o jogador orgulhoso do time campeão de futsal Zé Cláudio, falou do respeito aos professores, valores, das amizades, emprestando-se de grandes escritores brasileiros emocionou e lembrou com uma ponta de tristeza dos amigos que partiram cedo demais, ali dissemos “presente”.
Meu pai faz parte dos que se distanciaram geograficamente, mas provo que a memória e o coração ficaram em São Luiz. Ouvi sobre o basquete, sobre as puladas de muro, as descidas a secretaria, até os picolés. Até o hino do Batista eu conheci, em encontros etílicos dos maranhenses, até choravam, saudade do estado querido e um pouco do efeito do álcool também. Alguns nomes fizeram parte da minha infância. Pude dar rostos ainda menina, outros só no encontro. Ouvi do amigo que se ele tivesse que escolher uma só pessoa do grupo, a melhor pessoa, ele escolheria o meu pai. “Seu pai foi meu primeiro amigo no Batista, ele me acolheu, sempre foi assim, eduicado e corretíssimo, me emociono ao falar dele”. Os olhos dele encheram de lágrimas, os meus também, e não pude dizer que o nome dele sempre me foi falado com muito carinho, desde criança ouvi o nome Elias Haichel por aqui.
E veio o acaso ao descobrir que memórias e caminhos entrelaçados chegaram aos bancos da Universidade de Brasília, e me colocam na mesma disciplina do filho da Ana Lília, a amiga de escola do meu pai. Assim, revisitei eu as memórias, revisei as teorias, busquei o arcabouço teórico historiográfico para escrever a importância da memória, a deles, da turma de 1976 e da minha. Meu pai me ensinou a importância da educação, foi no Colégio Batista que aprendeu sobre o valor do conhecimento e se tornou a pessoa mais íntegra e ética que conheço. Me senti honrada, e orgulhosa, em poder descobrir meu pai menino.
Acontecimentos são espumas, o que interessa ao fim são as mudanças culturais geradas a partir deles, a história se constrói muito além de fatos. Parabéns e obrigada turma de 1976, são muito mais que 40 anos de história, os senhores esmaeceram os limites.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

2016, amadureceu

2016 foi igual a texto difícil de escrever, daqueles que você inventa, olha, detesta, inverte a ordem, reescreve os parágrafos, refaz o lead, risca, amassa e começa de novo pra ver se dá jeito. Aí de repente trava tudo, não sai nada, nem uma mísera linha, pior que do que bicho empacado, mas quando você ta muito perto de desistir algo surge e enche laudas e laudas então você acha “agora vai”, mas estagna de novo. Até que um dia você consegue terminar, não ficou tão bom quanto queria, ou imaginou lá no início, mas relê e vê que também não ficou tão ruim assim.

Foi um ano complicado por aqui, e a contar pelas reclamações generalizadas nas redes sociais muita gente brigou com 2016 também. Reafirmei minha birra dos anos pares, admito que mera superstição, mas que ando preferindo os ímpares eu não nego. Vivi algumas batalhas inglórias, mas também tive vitórias gloriosas, não sou tão ingrata. Me reinventei.

A crise econômica e seus números assombrosos assolaram o país. Assistimos o desemprego crescer, atingir 12 milhões de pessoas. Vimos estabelecimentos tradicionalíssimos da cidade fecharem suas portas e o comércio popular sofrer, Questionamos a competência de nossos gestores. Observamos assustados a desigualdade social, a intolerância, o ódio que mata e muitas tragédias, foi um ano difícil para qualquer coração. Todos perdemos.

Fomos notícia pelo mundo, mas por figurarmos entre os países com esquemas corruptos imensos e intrínsecos a nossa política. Odebrecht seguiu com suas delações e apresentou um buraco sem fundo, para provar o que o José Simão anuncia faz tempo “não tem virgem na zona”. Em ano de impeachment, assistimos uma discursão polarizada que esqueceu que há vários outros tons entre preto e branco, a história não é linear, assim como os interesses também não o são. Desacreditamos.

Mas também foi o ano dos jogos olímpicos brasileiros. Sim, eu sei, desrespeita as desigualdades, “não é prioridade, o legado é mínimo, é extorsiva”, mas que foi linda, ah isso ela foi. O mundo inteiro esteve aqui, conhecemos milhares de histórias inspiradoras, assistimos competições de altíssimo nível, vibramos, choramos e a festa no Rio foi linda. Contrariamos os mais pessimistas, desculpa Irmãos Wright, mas o avião é nosso. Emocionamos.

E lá o ano se vai meio atrapalhado ainda, empacando a fila, parece não querer passar. Mas assim como texto difícil a sensação de dever cumprido é libertadora. Muito mais por saber tudo que se aprendeu nas adversidades, pela desconstrução das certezas. Escolho a palavra amadurecer para 2016, porque essa foi a missão do ano. Começou sem que eu entendesse, ou aceitasse muito bem, todo enviezado.E  vieram os 30 e foi gostoso ver que a mulher um ano atrás já não habita mais. E no fim não foi tão bom quanto eu queria, foi penoso, mas também não foi tão ruim assim. Sobrevivemos.

domingo, 25 de dezembro de 2016

Coelhos!

Meu Natal não é dos mais sacros. Não temos muitas tradições religiosas, nem lembro a última missa de Natal que assisti, se bem que se a do Galo do Papa, direto do Vaticano, contar, ela é bem bonita e sempre passa na TV da sala, como se entrasse em comunhão com o resto do mundo. Por aqui tem muita comida e os shoppings lucram muito com a quantidade dos Coelhos. 

Por aqui é um monte gente reunida que faz bastante barulho. A escolha do cardápio da briga, sorteio do amigo oculto da briga, até a cor da decoração da árvore da briga. É uma confusão sem fim todo ano que já começa nos preparativos e só termina na hora de guardar a louça da ceia.

Mas por aqui também o recheio principal no meio do caos é família. Dia que os primos conseguem colocar os adultos mais tímidos do mundo para participar de um "mannequin challenge". Dia de declarações amorosas no amigo oculto. Dia de agradecer a tia que cozinha divinamente. Dia de trazer todo mundo para casa da Vó e de um monte de fotos. Dia de ver que o tempo passou, mas a reunião é a mesma, o sentimento também. Nosso sentido é esse,  se passamos o ano afastados, é nesse dia que nos encontramos para desejar felicidade aos Coelhos. Por aqui, é uma noite feliz! 


Feliz Natal!!!