quinta-feira, 15 de maio de 2014

Crônica de uma amizade sem data



 Desde quando nos conhecemos? Não sei, acho que desde os 12 anos. Da onde? Não sei, da vida, talvez de outra, nossas histórias se cruzaram infinitas vezes. Compartilhamos muitos amores, o principal deles talvez seja a música, não só por um estilo, mas pelo que representa, pelo que nos faz sentir. Ela tem alma de artista, assim como alguém muito especial me disse que eu tinha uma vez. O apelido nunca foi atoa, se a chamo de "coração" é porque sustenta dentro dela o maior coração do mundo. E se fosse uma palavra só, seria companhia. 

Aprendi sobre amizade com muitas pessoas, fui, e sou, rodeada sempre de gente muito especial. Ela talvez seja a melhor pessoa que conheço, ela sempre quis abraçar o mundo todo, curar tudo e todos, com a terrível mania de negligenciar a própria saúde e nunca saber dizer não. Se eu sou a parte cética, ela é a pura crença. Chora até em inauguração de supermercado de bairro, mas tem uma força inacreditável quando precisa ter. Uma outra palavra dela: justiça.

Com ela é simples, nas insanidades do dia a dia e nas rotinas sempre tão malucas a gente pode entrar em uma discussão que beira as vias de fato em um minuto e logo depois sair pra tomar café. Passionalidade também pode ser a palavra dela. Simplesmente sei que ela vai estar lá. Vive me devendo um monte de coisa, tem o carro mais bagunçado do mundo e uma capacidade inacreditável de perder,esquecer absolutamente tudo. Sim, eu a conheço bem, mais que isso, ela sabe todas as minhas forças e fraquezas como muita pouca gente sabe. Eu nem mesmo lembro quando ela entrou na minha vida, mas tem um espaço só dela.

Bom nessa vida é ter por perto quem se admira, e eu posso esculhambar ela diversas vezes, ela bem sabe os motivos, mas tenho muito orgulho de ser amiga de alguém que me inspira, que me ensina como se pode acreditar em um mundo melhor, que caridade é sobre querer fazer o bem. Ela está sempre lá, eu estou sempre aqui.  Temos a mesma capacidade, e ansiedade, de nos envolvermos em milhares de coisas ao mesmo tempo, nesse dinamismo louco de quem acredita que precisa usar muito bem o todo tempo que tem. 

E são tantas histórias, concertos e shows, as dores de cotovelo mal-curadas, maracanã lotado, perdidas no metrô de Paris, ligações de madrugada, Sonhar Acordado, sambas, aniversários, até sala de espera de hospital. Impossível listar uma vida toda. Desde quando somos amigas? Acho que desde sempre. Ganhei há bastante tempo a minha melhor companhia e ela veio com o maior coração do mundo. Feliz Aniversário Coração, para você um mundo melhor.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Sempre Amáveis



Quando ele escreveu pensou numa cidade submersa, na cena de um Rio perdido e um amor que ficou. Eu preferi pensar em possibilidades futuras, naquilo que vem sem esperar, sem preparo, que toma lugares e espaços, em tudo que se renova. 

Percorri por aquelas frases centenas de vezes e ainda procuro pelo “não se afobe não” numa tentativa infinita de controlar a ansiedade maldita que quer tudo agora, que tudo procura entender e insiste em querer antecipar ou atropelar os acontecimentos. Se aquieta e aprende a parar o barulho, “ele pode esperar em silêncio”.

Coloquei muito “num fundo de armário”. Tentei organizá-lo inúmeras vezes na tentativa de manter tudo ali, bem guardado, deixei longe o que ainda podia doer, encaixotei a saudade. O tempo passou e “futuros amantes quiçá se amarão sem saber”, sem saber como pode doer, como se pode recomeçar, como tudo segue seu fluxo, como por vezes se olha para trás, mas não se anda para trás.

E se música cura eu tatuei a melhor delas para sempre, carrego Chico comigo, só meu. A homenagem foi para ele, para meu pai e para mim. Olho para o espelho e lembro na pele que “amores serão sempre amáveis”, que possibilidades são infinitas e esperam pelo momento certo. Quando ele escreveu pensou numa cidade submersa e em um amor que ficou, eu prefiro pensar em um que se foi e naqueles que virão, "Futuros Amantes".

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Obrigada Malala!

“Para nunca tirar essa sua vontade de conhecer história”. À uma amiga muito querida que me presenteou com um excelente livro e uma das mais belas dedicatórias que já recebi. Obrigada Camis!

E depois de tantos anos de escola eu precisei de uma garotinha de 15 anos para me ensinar sobre coragem, sobre como a educação é o bem mais precioso de alguém. Malala Yousafzai, obrigada por me lembrar. Foi estudando que aprendi sobre relativismo cultural e sobre as invenções das tradições. Eu sempre acreditei na educação, devoto a ela minhas esperanças no futuro, as individuais e as coletivas, ela salva o mundo. Sou filha de uma pedagoga apaixonada pelo que faz e aprendi dentro de casa o poder de um livro. É a educação, e só ela, que desconstrói preconceitos, que protege as diferenças, entende a diversidade e liberta. 

Malala Yousafzai é uma garota paquistanesa, nascida em Mingora em 1997, em seu país a educação é para poucos, quando se tratam de mulheres, para muito poucas. Aos 14 anos ela foi impedida de ir à escola, não porque seu pai não mais quis, mas porque o regime de governo vigente proibiu as garotas de estudarem, sob a justificativa de uma possível secularização e ideologia contra o Islã. Malala, a convite de um jornalista, criou um diário com um pseudônimo, a exemplo de Anne Frank precisava contar a situação de seu amado vale e continuou frequentando as aulas de forma clandestina.

O Talibã bombardeou escolas, matou professores e ameaçou ou assassinou todo aquele que falou contra o regime. A educação dela não veio só dos livros, mas de pais que a incentivaram, seu pai tinha um sonho ter uma escola e que a filha fizesse feitos incríveis, afinal dera o nome de uma heroína paquistanesa a filha. A família teve foi exilada na época do domínio Talibã. Era a prova que a educação era uma ameaça, pessoas que pensam são ameaças.

 “Quando cruzamos o desfiladeiro Malakand, vi uma menininha vendendo laranjas. Para cada laranja que vendia, ela fazia uma marquinha com lápis num pedaço de papel, pois não sabia ler nem escrever. Tirei uma foto e jurei que faria tudo o que estivesse a meu alcance para ajudar a educar garotas como ela. Era essa a guerra que eu ia travar”

Em 2012, o Talibã provou sua crueldade contrariando as expectativas mais pessimistas e atacou um ônibus de crianças na saída da escola, ferindo três meninas. Ela não teve tempo de responder quando ouviu “Quem é Malala?”, ele já atirara nela. Quase dois anos depois, ainda em recuperação, Malala discursou na ONU, foi apresentada por Gordon Brown como "a garota mais corajosa do mundo".  Se o Talibã queria silenciar sua voz, o efeito foi contrário, a voz da garota ganhou o mundo e recebeu apoio de gente importante.

"Os terroristas pensaram que eles mudariam meus objetivos e interromperiam minhas ambições, mas nada mudou na vida, com exceção disto: fraqueza, medo e falta de esperança morreram. Força, coragem e fervor nasceram"

Durante o discurso ela falou  mais uma vez sobre sua luta pela educação. "Vamos pegar nossos livros e canetas, eles são as nossas armas mais poderosas. Uma criança, um professor, uma caneta e um livro podem mudar o mundo". A ignorância pode até ser feliz, mas a educação é uma dádiva, descobre-se o mundo, viaja-se a planetas nas páginas de um livro. Ela descobriu o quanto fazia falta quando foi impedida de ter, eu vi o quanto era importante quando li o que uma garotinha é capaz de fazer por ela. Malala Yousafzai, você não é a menina baleada do Paquistão, é a menina heroína, obrigada por me inspirar.

“I think of it often and imagine the scene clearly. Even if they come to kill me, I will tell them what they are trying to do is wrong, that education is our basic right.”

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

E então você passou...





Você me trouxe aquilo que já não via há tempos. Foi chegando devagar, espantando o medo, tomando um espaço que era só seu. Afastou os fantasmas e trouxe calmaria. No eterno dilema entre crença e descrença provou que tinha muito a me oferecer, muito a me ensinar. Você me mostrou que é possível, e preciso, recomeçar.

Com você reinventei ambições profissionais, decidi por uma especialização diferente da minha. Conheci novos lugares, me encantei, me perdi e me encontrei em lugares distantes. Você foi preenchendo meus espaços, me dando novos sonhos. E foi tanta boa música, que as notas ainda ressurgem em mim para lembrar as mais belas melodias. 

E foi você que me trouxe novas pessoas. Me decepcionei com algumas, me surpreendi com outras, refiz laços, desfiz nós. E você foi só meu. Passei por sustos e voltas. Fiz as pazes com a dança, redescobri os limites do meu corpo, cuidei de mim. Eu que tinha uma sequência de feridas abertas, recebi de você tempo para fechá-las.

Me despeço de você com a certeza que fiz tudo que poderia ter feito. Fiz bom uso das oportunidades, me agarrei a tudo que me ofereceu, alarguei as fronteiras. Aguardo com bons olhos o que vem em seguida, refaço metas, retraço objetivos e espero o melhor. 2013 eu te amei muito e foi bom assistir você passar. Seja bem-vindo 2014!!!

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Obrigada Madiba




Ele é um daqueles que quando parte parece que leva um pedaço de mim, fica uma desesperança no lugar. O sentimento de perder um parente, alguém muito próximo, mesmo distante faz o olho enxer d’água e vem uma tristeza dolorida. Ele é daquelas figuras que não se explica, que se admira e que esperamos anos, talvez décadas,  para conhecer. Ainda tenho muito a ler sobre ele e sobre uma história política/social contemporânea e recente, o Apartheid encerrou seu ciclo há apenas nove anos, o ranso ainda é palpável, há uma trajetória longa a percorrer. Dele ficam os ensinamentos, o exemplo, os anos de luta e uma geração que pôde ter fé, que pôde acreditar. 

“Pode ser algo banal de se dizer a respeito de um indivíduo excepcional, mas Nelson Mandela é uma daquelas figuras históricas que, entre meados e final dos anos 50, e depois, nos anos 80 e 90, não foi apenas o homem certo a ocupar o lugar certo. O importante é que ele ocupou esse lugar não só de maneira decidida e deliberada, mas também com grande perspicácia política, alta capacidade de adaptação e um estilo admirável. Numa época em que a luta racial polarizada na África do Sul justificava uma atitude mais militante, ele encabeçou a difícil decisão de pegar em armas e conseguiu persuadir sua organização a apoiar a nova linha de ação. Mas, trinta anos depois, quando Mandela considerou que chegara o momento de passar das polaridades beligerantes para a mesa de negociações, outra vez encontrou uma maneira de impor sua estatura moral, de levar adiante aquela decisão e de obter o apoio de sua organização. Várias vezescriou um papel para si dentro da estrutura  e do quadro lógico do CNA, e depois o ultrapassou. Nunca duvidando de que tinha a razão a seu lado, ele conservou, durante 27 anos de prisão, a fé em seu projeto de uma África do Sul sem discriminação. Porfim demarcou seu lugar no futuro da nação como figura encarnando não só a justiça, mas também, e acima de tudo, a esperança” (BOEHMER, 2013)
 
Obrigada Madiba! Descanse em paz!

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Prefiro pensar

“Negro entoou um canto de revolta pelos ares”.  Já hesitei muitas vezes antes de entrar em qualquer discussão racial. Já perdi muito amigo defendendo política de cotas. Estudei muita história social/cultural para entender alguns processos e desconstruir discursos.Nunca participei dos movimentos negros, não sou a favor dos extremos, mas nem por isso fechei os olhos para as diferenças e todo dia 20 de novembro prefiro pensar.

Sempre me vali das palavras de Mandela, “Eu odeio o racismo, pois o considero uma coisa selvagem, venha ele de um negro ou de um branco”. As separações não são naturais, foram criadas, inventadas, legitimadas sob a face de tradição, como se fossem inveteradas e imutáveis. Condenamos nossos negros a 300 anos de escravidão e há mais de 500 de inferioridade, em educação, em oferta de emprego, em moradia, em saneamento básico, em respeito.

Cotas não são reparo social, cotas são políticas afirmativas. Com quantos negros você trabalha? Com quantos negros você estudou? A argumentação contra é sempre baseada em se oferecer uma melhor educação desde a infância, o que é incontestável. Mas a questão que fica é o que eu faço com essa geração? Os condeno ao subemprego? Ou espero que superem todas as dificuldades que lhes foram impostas? O professor e juiz federal Wiilian Douglas melhor definiu a situação. "Conheço vários heróis, negros, do Supremo à portaria de meu prédio. Apenas não acho que temos que exigir heroísmo de cada menino pobre e negro desse país”.

Somos uma nação miscigenada, motivo de orgulho quando pisamos fora das fronteiras. O discurso clássico quando se questiona a classificação racial no país é: "Mas quem é negro ou branco no Brasil? Eu posso escolher ser o que quiser". Sim, é possível, a questão racial em termos antropológicos pode ser vista por processos identitários que envolvem critérios de aproximação, afetividade e assimilações - ou seja, em tese qualquer um pode se declarar negro. Mas e nossas periferias? Também podem escolher?

E podemos sair da subjetividade, seguir com estatísticas. Os dados revelados no último Mapa da Violência, de 2012, deixam claro que “a tendência geral desde 2002 é: queda do número absoluto de homicídios na população branca e de aumento nos números da população negra”. Segundo a divulgação, morreram 65% a mais de negros do que brancos no Brasil. O índice piora quando a idade é entre 12 e 21 anos, para cada 100 mil habitantes morreram 37,3 brancos, enquanto a taxa de negros é de 89,6 mortos para os mesmos 100 mil. Façam suas contas, para cada branco assassinado, morreram 2,3 negros, será que vivemos mesmo em igualdade racial?  

Nem todo mundo escolhe se é preto ou branco, são dois pesos e duas medidas. Eu (felizmente) pude, tive muitas oportunidades, estudei em boas escolas, assim como parte da elite que insiste em repetir a argumentação da miscigenação. Tenho muito orgulho de fazer bom uso da frase do meu querido e negro avô, “passou de branco, preto é”. Carrego minha cor, meu cabelo e minha história. Mas todo pobre e preto nesse país sabe muito bem quem é quem e não escolheu.

Se alguém discorda das cotas, me perdoe, mas não devem fazê-lo olhando os livros e teses, ou seus temores. Livros, teses, doutrinas e leis servem a qualquer coisa, até ao nazismo. Temores apenas toldam a visão serena. Para quem é contra, com respeito, recomendo um dia “na cadeia”. Um dia de palestra para quatro mil pobres, brancos e negros, onde se vê a esperança tomar forma e precisar de ajuda. Convido todos que são contra as cotas a passar conosco, brancos e negros, uma tarde num cursinho pré-vestibular para quem não tem pão, passagem, escola, psicólogo, cursinho de inglês, ballet, nem coisa parecida, inclusive professores de todas as matérias no ensino médio. (Willian Douglas em http://www.pragmatismopolitico.com.br)

O mesmo convite fez a professora Jane Elliott, de Riceville, Iowa, a seus alunos em 1969 quando decidiu mostrar-lhes de forma empírica o que era discriminação e quais eram os prejuízos que causava às pessoas. Elliott criou o exercício “Olhos azuis/Olhos castanhos” , 30 alunos foram divididos pela cor dos olhos, no primeiro dia, a professora disse aos meninos de olhos azuis que eles eram mais espertos, mais bonitos, mais limpos e melhores do que os de olhos castanhos. Durante todo o dia a professora elogiou-os e concedeu-lhes privilégios, enquanto que os meninos de olhos castanhos, além de terem de usar um colarinho, tiveram os seus comportamentos e resultados criticados e ridicularizados. No dia seguinte, os papeis inverteram-se, os alunos de olhos azuis a serem considerados os “inferiores” em relação aos de olhos castanhos.


A professora fotografou e avaliou o desempenho de cada grupo durante o exercício, revelando a queda de aprendizagem nas crianças discriminadas. A experiência virou documentário, ganhou publicidade e inúmeras críticas. “Como te atreves a experimentar aquela crueldade com crianças brancas; as crianças pretas crescem habituadas a tal comportamento, mas as crianças brancas não conseguem compreendê-lo. É cruel para as crianças brancas e vai causar-lhes graves danos psicológicos”. Eis o senso comum, negros podem ser inferiorizados e ridicularizados, afinal aprenderam a viver com poucas – ou nenhuma - oportunidades. 20 de novembro, prefiro pensar.
“Eu já suportei demais o seu escárnio. Suportar é a lei da minha raça. Eu sou negro, sou negro sim. Mas por acaso negro não tem olhos? Negro não tem mãos, não tem pau, não tem sentidos? Não come da mesma comida? Não sofre das mesmas doenças? Não precisa dos mesmos remédios? Quando a gente sua, não sua o corpo tal qual um branco? Quando vocês dão porrada na gente, a gente não sangra igual? Quando vocês dão tiro na gente, a gente não morre também? Pois se a gente é igual em tudo, também nisso vamos ser...” (Lázaro Ramos em cena de Ó Pai Ó)