terça-feira, 27 de setembro de 2016

Sobre simplificar

Nos tempos de faculdade flertei com jornalismo literário e conheci o trabalho de uma jornalista habilidosa, de textos extensos e olhar peculiar. As pautas comuns, ela escrevia sobre pessoas, sobre a vida que ninguém vê, título que virou livro anos depois. A sensibilidade dela sempre me encantou, como ela se conectava com os entrevistados, os respeitava, devolvia dignidade àquelas pessoas por vezes invisíveis à sociedade. Na complexidade das teorias sociais e do cotidiano ela simplesmente simplificava.

Sete anos depois ela explode em mim em mais um dos seus textos que eu gostaria de ter escrito, que ficam rodando os pensamentos por dias, que perturbam até os sonhos. Em artigo longo no El País, ela escreveu sobre ansiedade, aquilo que luto diariamente contra, sobre essa vontade louca de não perder nada, de alcançar o 24/7, sobre estarmos sempre exaustos e correndo.

Logo eu que gosto tanto da minha rotina maluca me vi ali desenhada em uma triste e preocupante fotografia. Me vi criando muito pouco, recebendo muito conteúdo, me distanciando de mim e mais ainda perdendo a minha capacidade de compartilhar. Pelas linhas dela vi como me exploro nessa ansiedade de produção infinita e na cobrança de sempre ser mais, fazer mais e acabei me percebendo mais egoísta e pavorosamente limitada.

“Afinal, se tudo é possível, como eu não posso? O imperativo do tudo é possível é, paradoxalmente, aniquilador. Porque, obviamente, tudo não é possível. Nada mais limitante do que acreditar não ter limites. E viver como se poder poder dependesse apenas da (livre) iniciativa de cada um. E não poder poder, ter limites, portanto, fosse um fracasso pessoal.” (Brum, Eliane)

Eu sempre me orgulhei em ser multitarefa, na habilidade de fazer trocentas coisas ao mesmo tempo e pensando nas próximas, me vi ali na solidão que o texto elucidava. Os excessos com trabalho, descaso com os limites e a depressão. Minha autoexploração tinha me tornado vítima de mim mesmo. Questionei minha capacidade de me aprofundar em um, de contemplar. Quantas vezes me vi com limites desenfreados, querendo tudo o tempo todo e rápido? Afinal o tempo ia passar e eu não podia ficar. Quantas vezes deixei as expectativas tomarem conta na ansiedade de sempre ser mais? Afinal, eu não podia mesmo ficar.

Revi meus comportamentos, refiz perguntas, mas não, não entrei na Yoga, nem no TaiChi, não fui, (nem vou), largar tudo e morar no litoral. Assim como a autora encerra a argumentação dizendo que não vamos mudar, que seguiremos em nossas rotinas, acho que também não vou mudar tanto assim, mas é preciso pensar.  Ela também diz que há chance enquanto houver rebeldia. Apesar de uma inconformada inveterada, a minha não veio espontaneamente, minha mente que se rebelou, quebrou e exigiu uma pausa, me ensinou a desacelerar porque existem sim limites e é difícil reconhecê-los.

No fim, desconstruções foram necessárias. Foi preciso me reinventar, deixar o determinismo de lado, me abrir de novo, me permitir para sair do um só. Talvez tenha sido a proximidade dos 30 me levando aos clichês das reavaliações, talvez minha profunda admiração por alguém que olha e escreve tão bem, não sei bem, mas a maturidade já me trouxe algumas certezas. Uma delas é que não quero perder a empatia, mesmo na loucura da minha rotina deixar de lado a capacidade de contemplar, de me ver no olhar do outro, de doar meu tempo, de me doar. Quero a correria, mas prefiro deixar a exaustão de lado. Mais que tudo, assim como a repórter tão admirada, quero saber simplificar.

"E a vida continua surpreendentemente bela
Mesmo quando nada nos sorri
E a gente ainda insiste em ter alguma confiança. 
Num futuro que ainda está por vir. 
Viver é uma paixão do inicio, meio ao fim. 
Pra quê complicação, é simples assim” 
(Lenine – Simples Assim)

terça-feira, 12 de julho de 2016

Ela e ele


Quanto mais ele tentava se afastar dela, mais ela acreditava que a trajetória não é feita por uma sequência de acasos. Não se sentencia o destino. Enquanto ele se apegava a pseudo sensação de controle, ela preferiu escolher se livrar do medo.

Ela aprendia a lidar com os percalços da história. Ele se agarrava ao que não conseguia deixar ir embora. Ela preferia a percepção, aquilo que não é palpável, que não se explica, não se racionaliza, que só se sente. Enquanto ele preferia fincar os pés no chão escuro e se enfiar nos velhos erros.

Ele preferia viver em apenas um. Ela descobriu que não podia viver por dois. Ele se afogava nas lembranças de falhas. Ela precisou entender sobre perdão. Sem saber explicar sobre o intangível descobriu o sentir, aquilo que traz de volta. Se recusava a acreditar no fim sem sabor, preferia o riso largo a amargura da cama vazia.

Ele ainda se escondia, precisava ser inteiro, se livrar do que não lhe servia mais, acreditar, soltar o peso e se livrar das amarras que criou para si. Ali ainda tinha lugar para a felicidade de antes. Ela o trazia sem saber, voltava sem saber, ainda era ele mesmo sem saber, mas ele precisava querer. Ela preferia esperar o próximo acaso. 

domingo, 26 de junho de 2016

Um pouco mais perto...

Te odiei por muitos segundos, mas me veio o “será que você ainda pensa em mim?”. Evitei lugares, reescrevi memórias, apaguei lembranças, bloquiei o passado, me afastei de você,  de tudo que me trazia você, me desliguei de nós. Tirei o que não me servia, entulhei um armário e guardei toda mágoa em uma caixa funda escondida lá no alto. Desapareci em meio ao meu mundo.

Fiz um trabalho em mim, me reergui aos tropeços. Trouxe o novo. Atravessei um oceano para me achar mais uma vez. Passei noites em claro, tive medo, chorei baixinho, gritei aos ventos, procurei respostas, mudei as perguntas e tentei reescrever toda a história. Marquei na pele outra vez. Precisei me entender para compreender você.

A saudade sufocada por meses, a poeira que agora já ficou menor, as datas sofridas e a sensação de por viver. Revisitei meus comportamentos, achei minhas falhas e o preço alto que paguei. Quis procurar você “rezando para um dia você se encontrar e perceber”, preferi meus esconderijos.

Ainda te desejo todas as palavras nos cartões, nos presentes sem datas, nas ligações fora de hora. Penso nos meses em que passei sem escrever nem mesmo uma linha, no medo em me enfrentar, em aceitar. Ainda tem muito de você em mim.

Sigo no meu mundo, mas não mais desaparecida. Tirei a caixa do armário, tento me desfazer dela, não precisava ser assim, “essa dor eu não quero pra ninguém no mundo, imagina só pra você”. Não quis deixar o espaço do ódio em mim, prefiro preencher com o mundo, com as possibilidades. Prefiro reescrever, mesmo que seja você.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Quando eu tentei...

Nunca tinha insistido em alguém e foi com você que decidi. Ofereci tudo que podia ser. E se era fácil lidar com a sua sinceridade, foi difícil não me perder nela. Quando eu decidi ficar, quando tudo só fazia sentido assim. Mas precisei me explicar tantas vezes...

Quando te pedi pra me levar pra ver Chico. O amor era meu, mas quis te mostrar um pouco dele. Quando eu te pedi companhia. Você disse que sim, mas o filme não veio.

Quando disse que você podia ser a minha sorte era pra que sentisse um pouco do que eu sentia. E sei que sentiu. Mas a sorte ficou de pontas soltas por aí.

Quando me fez sorrir. Quando brincando me pediu em casamento. Quando eu quis aceitar sem brincar tanto assim. Quando me olhava dormir. Quando fomos felizes. Mas o sorriso se foi.

Quando eu pedi seu ombro. Quando te pedi proteção. Quando implorei que me desse atenção porque eu estava quebrando. Mas acho que quebrei antes que você pudesse chegar.

Quando te pedi pra não ter medo. Quando falei que amor é pra quem tem coragem. Quando implorei tantas vezes para que ficasse. Quando te ofereci um mundo novo e te pedi pra me mostrar o seu. Mas preferiu não acreditar.

E como Chico eu preferi bater o portão sem fazer alarde, guardar as melhores lembranças. Quando me prometi que seria a última vez. Dessa vez decidi não ficar. Mesmo saindo aos pedaços em uma estrada que ainda parece ser sua. "uma saideira e muita saudade...". 



sábado, 5 de setembro de 2015

Meu roteiro

Se meu histórico amoroso fosse virar roteiro seria uma comédia nada romântica. Sem a pegada clichê com final feliz e R&B tocando. Estaria mais para uma comédia rasgada ou um drama daqueles que parece que as peças não se encaixam. Mas nem tudo é ruim, também não viraria filme policial nem estamparia nenhum terror barato. Com certeza o sobe som do final não viria com um joelho no chão e aliança na mão.

Cedo eu tive que aprender que para mim o tempo é outro, tudo só acontece quando tem que acontecer, não adianta tentar apressar nada, porquê qualquer tentativa contrária, em bom carioquês, "dá ruim". Nunca sofri de desespero patológico, mas como toda alma feminina ansiosa, tem horas que a vontade é perguntar qual é a da sacanagem celestial porque parece que a única não-merecedora da coisa sou eu. Já foram tantos cacos para juntar que descrença vira uma certeza habitual.

Meu primeiro beijo veio junto com o primeiro namoradinho, esse foi ponto fora da curva, não tenho lembranças ruins dele, na verdade quem desandou a coisa toda fui eu. Daí pra frente foi ladeira abaixo, deve ter sido nesse ponto que ruiu, castigo talvez. Tudo bem, pouca gente pode contar por aí que foi conhecer o novo namorado da amiga e o novo dela tinha sido seu antigo por um longo tempo, mas ele preferiu não contar, “mas vocês já se conhecem?”, “sim, ela é amiga da minha irmã”. Não exatamente.

Quando era mais nova, o cara ficava comigo e namorava a próxima, criei minha teoria que eu despertava um não sei o que para o enlace, mas eu era muito boa para eles, então preferiam a próxima. Altruísmo puro. Com a idade veio a evolução, namora comigo e casa com a próxima, já casei uns três ou quatro. Mas hoje já temos a classe dos divorciados também, sim eles voltam e te atrapalham de novo.

O segundo namorado foram dois anos de muitos projetos e pouca execução. Tudo se perdeu no mundo das ideias. Nunca me culpei por querer mais. O terceiro foi execução demais e planos de menos, até que o amor da minha vida achou o amor da vida dele. É, a última história daria um filme bem clichê, mas a última cena não seria minha.


Tem gente que não veio para caber no enquadramento, talvez eu seja uma delas. Acabo sempre com os conhecidos, os dodóis, os inseguros, os indecisos, coleciono histórias mal resolvidas. Oferta por aqui nunca foi muito ampla, mas também nunca faltou. Não, eu não sou exigente demais, ou melhor, sou bem exigente sim, afinal não me achei no lixo, mas não é isso que me faz enfrentar salões sozinha. Só não troco minha paz por pouco.

Não nasci para amarras, fujo das convenções e evito rituais. Não, acho que não vou casar, não combina comigo. Por vezes me sinto muito sozinha e sofro um pouco, mas passa, sempre passa. Ser um é sempre uma arte, enfrentar os olhares, os comentários e a certeza das pessoas que podem sugerir na sua vida. Acho que minha vida daria um bom roteiro sim, com uma sequência de tragicomédias, mas desses que a gente acaba rindo no final.

Ainda...

Impressionante como ainda é você. A cada vitória é para você que quero correr. É com você que eu quero compartilhar. Como em cada derrota e é em você que eu quero chorar, a cada problema, como a sua opinião ainda ridiculamente conta

Quero te contar que ainda malho de manhã cedo e aprendi a tomar suplemento. Que ainda me perco nos lugares, mas aprendi a usar o waze. Ainda luto pra parar de tomar refrigerante. Ainda falo "missão" e "deu ruim" e as pessoas acham engraçadinho.
Leio escândalos no jornal e penso em você, em como você tinha opinião sobre tudo. Tenho saudade dos seus pareceres técnicos.

Sim, ainda tem você aqui. Mesmo estando a milhas de distância. A opção sempre foi sua e não minha. Por vezes ainda pego telefone as 6h da manhã, mas não tem nada lá. Sua lembrança está cada vez mais distante, mas sua falta insiste em estar cada vez mais presente.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Saudade...

Hoje me deu saudade. Todo ano quando setembro vem anunciando sua chegada é assim, sua falta me incomoda e acho que vai sempre me incomodar, mesmo quase 15 anos depois. Hoje senti saudade do café, dos livros, das palavras cruzadas, das madrugadas e até dos resmungos, de fiscalizar a casa...Por anos eu sonhei que você entrava pela porta de mala na mão e dizia que tudo havia sido um engano. Levei anos para conseguir pronunciar a sua ausência. Até hoje não tenho muita certeza se aceito sua falta. Como eu queria ter tido mais tempo com você.

Você se foi quando eu estava começando a descobrir um mundo que você já conhecia bem. Aprendi muito com você, mas tenho certeza que foi muito pouco comparado a tudo que tinha a me oferecer. Outro dia me perguntaram qual era a graça de livros e mapas e eu fiquei paralisada, me veio você. Como assim uma pergunta dessas? Porque com você eu aprendi sobre conhecimento, sobre informação, que cultura não tem área, você era o economista que lia As Lusíadas de Camões e adorava o Quincas de Jorge Amado.

Agora eu estou no Banco, quem diria que eu teria a sua mesma carreira? Mas acho que foi assim, meio sem querer que acabei escolhendo você, por gostar tanto da história que construiu, na sua simplicidade imensa do vovô de 1,5m. Como era bom gastar minhas noites ouvindo "Tatinha faz essa aqui".


Não tenho a sua simpatia, nem o carisma de conversar com qualquer criatura no mundo, mas tenho o maior amor do mundo pelo bem mais precioso que me deixou, a curiosidade pelo conhecimento, pelos jornais, pelos livros e nossas palavras-cruzadas, agora eu sei fazer as difíceis, mas ainda não me arrisquei nas que não tem divisão nos quadrinhos, um dia a gente volta a brincar juntos e você me ensina. Juro que não ando fazendo muita "zoada", nem "escangalhando nada vô. 

Hoje me deu saudade...