segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Novos tempos...

Deixo um tempo de conquistas, mas não sem dor. Recordo as tantas lágrimas roladas a a estafa que se espalhava pelo meu corpo a cada nova notícia. Abandono os dias de cama, a solidão dolorosa e o medo. Agradeço os resultados finais, os sopros de esperança e a força que surge sem procedência definida.
 
Fecho os olhos e penso em você. Me despeço do que fui e espero o que serei. Se existe uma força maior, é ela que divide o tempo e possibilita recomeços, renova forças e crenças na infinita busca por dias melhores. Respiro novos tempos, ainda tímidos, sem grandes anúncios, caminhando em um quase “rallentando”. Peço o bem.
 
Desejo o mais, desejo felicidade, dessas que se espalha e a gente se esbalda. Aspiro gentileza, educação e respeito. Entrego minhas flores, fecho meus olhos em prece e peço proteção. Deixo as promessas de apocalipse e loucuras infundadas. Começo sem promessas, mas inundada de sonhos e energias recarregadas. Deixo um tempo na certeza de outro melhor, um novo ano, um belo ano. Feliz 2013.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Meu samba vai curar a dor que existe

Meu amor pelo ritmo não é nenhuma novidade, é para ele que corro quando tudo vai mal, é por lá que fico quando a alegria é incontida. São melodias e letras que me trazem um tempo que não vivi, uma poesia delicada, um ritmo liberto e uma sensação de identidade. E a minha relação com o samba virou coisa séria, foi ele que estudei quando decidi terminar a graduação em História, trabalhei com Rio de Janeiro nas décadas de 1930 a 1950, anos que modificaram o entendimento do ritmo. Tentei estudar a tragetória, o resultado foi muita coisa lida, muito aprendizado e muito a aprender, deixo aqui a conclusão da minha monografia, defendida em 2011 na Universidade de Brasília. Porque como escutei de Muniz Sodré "a mãe a gente sabe quem é, o pai é desconhecido". Feliz Dia Nacional do Samba.

"Se o país possuia identidades múltiplas, com o samba não era diferente. Não foi o samba, em sua totalidade, nacionalizado, sim uma parcela dele, aquela que transitava entre a elite intelectual e a Rádio Nacional. A música produzida e gravada no Rio de Janeiro e difundida pela Indústria Fonográfica que por fim rompeu as fronteiras e alcançou países estrangeiros. O samba não foi enaltecido como símbolo nacional de maneira ampla e irrestrita. As resistências e preconceitos perduraram, prova disso são as críticas encontradas em publicações da época.

A pluralidade de identidades contidas dentro do movimento sambista evidencia como o processo foi bem mais complexo do que a simples elevação do gênero à condição de nacional. Não foi mera resistência popular ou apenas um projeto de governo em criar uma identidade homogênea. A cultura de massas e o dinamismo das tradições foram outros fatores que influenciaram e problematizaram o processo. Assim como a sequência de inter-relações, apropriações e expropriações culturais.

O processo e suas nuances ainda não foram totalmente explicados. Apesar de uma ampla bibliografia sobre o tema, as informações são por vezes contraditórias e não há um consenso entre os autores que esclareça como um gênero antes marginalizado, onde a polícia prendia quem o tocava, virou artigo apreciado pela elite e produto de exportação. Algumas obras circulam com o caráter de leitura obrigatória e servem de base para novas discussões, como “O Mistério do Samba” de Hermano Vianna. Outra obra frequentemente revisitada é “Samba - o Dono do Corpo”, de Muniz Sodré.

O interessante desse processo de nacionalização é observar como ele foi aos poucos naturalizado e enraizado na cultura brasileira. Expresso nas mais diversas formas, na música, na dança, na imagem brasileira no exterior, na exaltação do samba velha-guarda, tido como puro e incorruptível. Manifestações de um mesmo gênero musical, mas que adquiriu novas formas de representação ao longo de seu percurso. “E soava como algo tão natural, tão estranhamente brasileiro, que, em 1940, Dorival Caymmi, já proclamava em Samba da Minha Terra: “ quem não gosta de samba/ bom sujeito não é/ é ruim da cabeça/ ou doente do pé” (PARANHOS, 2003, p. 109).

Se a elite tentou se legitimar com o samba, o samba se sustentou na elite. Nas relações que o samba desenvolveu nas primeiras décadas do século XX, o que se observa é uma sucessão de agentes, se os mediadores culturais foram importantes por um lado, por outro os próprios sambistas desenvolveram habilidades políticas e trabalharam ativamente na legitimação do ritmo. O resultado foi um símbolo identitário que perdura até os dias de hoje." (Tatiana Coelho, 2011)


 

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Um melhor contexto

Como boa historiadora, penso em contextos, nada faz sentido quando retirado de sua realidade social. Seguindo esse raciocínio, faço minha reflexão sobre esse 20 de Novembro, Dia da Consciência Negra. Há pouco, foi perguntada a minha opinião sobre o trecho retirado da entrevista do ator americano Morgam Freeman em que ele se opõe ao “Black History Day” e concluo que no constructo social que ele vive a colocação faz sentido, no Brasil, talvez não, em função de percursos e tragetórias.

O processo de colonização americano criou um país com diversas organizações econômicas. As colônias do norte que se mantiam voltadas ao mercado interno e com uma industrialização incipiente e as do sul que se baseavam na agroexportação e na mão de obra escrava. Essas diferenças  gerariam a Guerra de Secessão anos mais tarde, deixando marcas de separação que refletem até os dias atuais. A  luta pelos direitos civis e contra um regime opressor e segregacionista - que renegava o direito a sentar em bancos de ônibus, de ingressar na universidade ou ao voto - são evidências de uma tragetória marcada por conflitos. Assim, era estabelecido, os brancos de um lado e os negros de outro, de preferência em um lado bem longe. Movimentos com luta armada como o Black Power e o Black Panthers  ou a liderança pacífica de Martin Luther King e o famoso “i have a dream” que lhe renderia o Prêmio Nobel em 1964 se tornaram famosos no mundo todo.

No Brasil, o percurso histórico dos negros se difere, não tivemos segregação explicita. Nossa questão está na construção do imaginário popular sobre os negros, a mesma ideia lusitana do negro forte, de sexualidade exacerbada, do exótico. O negro visto como a raça inferior, incapaz, imagem incrustada na população e um preconceito silencioso, com a sombra de uma democracia racial, de um país com origem sincrética e agregador. Segundo dados do IBGE,  o tráfico de escravos trouxe quase dois milhões de negros para o país e trezentos anos depois, o fim do regime escravista colocou toda essa população à margem da sociedade, sem colocação no mercado, sem educação, sem moradia e sem qualquer proteção à subsistência.  A reforma Pereira Passos e o processo de higienização da cidade deram início a formação das favelas cariocas, majoritariamente negras, que se transformariam em grandes problemas de governo anos mais tarde.

Atualmente, o preconceito se dá pela via econômico-social por aqui, não necessariamente pela cor da pele, há um racismo velado, que se esconde. Mas o problema está presente nos números, os indicadores mostram que as maiores taxas de anafalbetismo, desemprego, evasão escolar, violência, mortalidade e outras se encontram na população negra. O último censo do IBGE trouxe uma quebra de paradigmas, 52% da população se declarou negra ou parda. Sempre soubemos esse dado no senso comum, mas a novidade é a identificação, o critério do censo é a auto-declaração, ou seja pela primeira vez a “raça”negra perde o caráter pejorativo e inferior e as pessoas querem ser ligadas a ela, se “assumem”.

São para reflexos desse tipo que no país se trabalha com ações afirmativas, como a política de cotas, uma vez que 58% das pessoas no Brasil mantém a mesma posição social de uma geração par outra, se considerarmos as taxas de destribuição de renda entedemos a gravidade da situação. Em abril desse ano, o STF validou as cotas. O argumento que cota é reafirmação do preconceito e absolutamente vazio quando não se conhece os indicadores sociais do país. Não se pode falar em equidade quando mais da metade da população do país é negra e eu só tinha dois sentados comigo no banco da faculdade .

Não chame Morgan de blackman porque de fato, não o define, queremos sumir com os esteriótipos engessadores. Mas por aqui, prefiro que me chame de preta, porque não quero o morena- claro, jambo ou escura, não me ofende, me enobrece. Quero meu cabelo enrolado e meu nariz de batata. Não quero ser igual, quero os mesmos direitos. Quero melhores taxas quando estudar os indicadores sociais do país. Como boa historiadora, só quero um contexto mais favorável, melhores realidades e que o sonho possa ser concretizado, não um dia, mas agora. Feliz Dia da Consciência Negra!


sábado, 10 de novembro de 2012

Me sinto vivendo

Me sinto mais perto dos 30 do que dos 20 com todas as idiossincrasias e incoêrencias da frase. Sim, há 10 anos eu imaginei muita coisa diferente, à essa altura eu seria mestre e estaria resolvendo algum problema mundial. Mas fui ficando por aqui, escolhendo pelo caminho, me decepcionando daqui, me animando ali, desapegando de algumas ilusões infantis e ganhando sonhos novos. Ainda quero viajar pelo mundo, falar outras línguas, ler uma infinidade de livros, conhecer gente, ainda quero muita coisa. A parte das comidas exóticas me reservo o direito de ficar sem, ainda tenho o paladar de criança.

Guardo a ansiedade dos 20, ou dos 15, dizem ser o mal dessa minha geração. É a tal Y que me concede a habilidade de ler, ver tv, falar com várias pessoas pelo celular e pensar no vestido da noite. Só não descobri ainda se isso é vantagem ou maldição. Manter a agenda sempre cheia e um bloquinho ao lado da cama para não perder as ideias que fervilham e parecem querer escapar.

Completo 26 primaveras e penso nas décadas percorridas. A redemocratização começava no Brasil no meu ano de nascimento. Enquanto eu dava meus primeiros passos na escola um presidente brasileiro sofria um impeachment. Perto dos 10 vi o Brasil erguer a taça do tetracampeonato. Assisti o fim do Apartheid na África do Sul e a implantação do Plano Real que levou a todo mundo pra Disney. Aos 15 eu vi aviões se chocarem contra prédios igual a cena de filme e com quase 18 um operário semi-analfabeto virou presidente do país.

Já perdi gente querida, já chorei baixinho em um canto escuro. Tive alegrias plenas, felicidades incontidas. Viajei, fiz amigos para uma vida toda. Tive dor de amor, dor de cotovelo e chorei muito por um pé na bunda. Fiquei doente,  senti raiva do mundo e não entendi. Morri de saudade e acordei no dia seguinte vendo que a Terra não tinha parado de girar.

Agradeço minha companhia e aprendo a ser só. Não tenho nenhum grande feito, não escrevi um livro, não fiz um filho, talvez tenha plantado uma árvore, não lembro. Tento ser uma boa pessoa, fazer pelos outros o que queria que fizessem por mim. Me encontro e me desencontro com Deus frequentemente. Tenho inspirações várias e uma mente cheia de desejos. Não me meço pela minha bunda, meu buraco é bem mais em cima. Tenho orgulho do meu humor ácido e problemas em manter a boca fechada.

Sou tanta coisa junta que viro um monte de projetos infindados. São 26 anos de dúvidas, de um trabalho que não recebe declaração de encerramento. Só tenho medo de estagnar, de perder os sonhos, de esperar o tempo passar. A única certeza é que desejo que venham os 36, os 46, os 56 e tantos outros. ”O que importa mesmo é comprovar que afinal de contas a melhor idade da vida é estar vivo”. Me sinto mais perto dos 30 do que dos 20, me sinto vivendo.

domingo, 28 de outubro de 2012

Limpo o que não me cabe mais

Limpo meu armário e me despeço de tudo que já nao me cabe mais. Algumas nunca usei, outras usadas à exaustão. Limpo meu armário como se pudesse me livrar de você, te enfiar no fundo de uma gaveta ou colocá-lo na pilha de doação. Tenho vontade de rasgar tudo que usei com você, de me livrar de todas as calcinhas bonitas e andar de pijamas por aí.
Reavalio tudo que vivi, cada escolha, cada detalhe. Revivo toda a história que tinha cara de pra vida toda. Procuro lógica no irreal, faço avaliações psicológicas, se encontrasse o momento do crash pudesse consertar tudo. Silencio. Algumas situações não são para serem entendidas em voz alta, nascem para viverem no silêncio, no intocável, naquilo que vem no fim da noite, que conversa com o travesseiro e insiste em surgir sem comando prévio.
Entro em pânico, recomeçar pode parecer renovador para alguns, mas é absolutamente assustador. Trazer de volta sonhos, crenças e esperanças. Se desarmar de novo, se permitir de novo. Sinto meu estômago congelar. Duvido. Ainda me apego a você. Ainda vai doer. Só não estou pronta para o drama, não para ter raiva de você, não para seguir.
Me falta tempo, me faltam as horas de permitir tirar um recesso da vida e deixar tudo sair do controle. Choro sem querer. Sinto falta. Talvez se pudesse arrumar cada peça dentro do armário abarrotado eu poderia organizar o resto da minha rotina, achar tudo de novo, reorganizar horários, talvez te trouxesse de volta.


Onze anos

Há onze anos eu te perdi. Lembro como se fosse hoje da ligação confusa e dos gritos pela casa, a incerteza da noticia e a incredulidade da situação. Ainda guardo o vazio que você deixou, ainda sinto a dor de não te ter aqui todos os dias. Penso em te contar minhas vitórias, em chorar minhas dores e poder tomar café com você de novo.

Você não estava na minha valsa, nem no fim da escola, tampouco quando segui meio sem querer a sua carreira. Não me viu segurar o canudo com orgulho, nem acompanhou a dolorida segunda graduação. Mas foi minha inspiração a cada passo. Meu extremo orgulho pela sua história, por ser fruto dela e por poder contar a todos com propriedade de neta especial.
Lembro de subir nos seus ombros e fiscalizar a casa, lembro de reclamar do seu ronco alto. Guardo com carinho as idas até a banca de revistas para comprar palavras cruzadas nível fácil, mera estratégia para se livrar dos meus rabiscos na sua dificílima. O sorriso largo, a simpatia natural e a estima em passar horas conversando. Minhas madrugadas sentem a sua falta.
 
Mesmo com a mesa da sala vazia, sem os livros, sem as palavras cruzadas, sem as madrugadas ainda te sinto a cada passo, a cada pedacinho da casa. Nenhum deles te teve como eu tive, ninguém te viveu como eu vivi. Guardo tuas lembranças, e teus livros, com ciúme de um amor que é só meu, que não quer ser compartilhado e que te mantém vivo em mim. Há onze anos eu te perdi e há onze anos ainda está aqui.

Acordo assustada. Lembro de você, faz tanto tempo. Pergunto porque essa lembrança agora, por que logo agora que tudo se complicou? Lembro do trabalho, tenho tanta coisa a fazer. Volto cinco anos quando as expectativas eram outras, quando as possibilidades eram infinitas. Checo no telefone, nada de novo por ali. Email e facebook continuam desinteressantes. Penso no futuro, quantifico o tempo, tento adiantar prazos, me pergunto "quando?". O espelho me afronta, me faz perguntas que eu não quero responder. Você faz falta, mas logo lembro que há muito mais.
Sozinha, sinto que a solidão não me assusta tanto assim, uma enorme vontade de permanecer em mim, de eliminar as interações sociais, de fazer com a cabeça se esvazie.  As horas nao dormidas refletem no rosto marcado, os sonhos repetidos perturbam o sono. O corpo dói no reflexo da mente inquieta. Penso no que fazer, no que decidir. Uma ansiedade incontrolável, um choro incontido e uma aptidão para o isolamento. Silêncio, retidão.
 
Chega a hora de procurar calmaria, de acalmar o coração, de tomar fôlego e mergulhar mais uma vez. De seguir e achar letras novas, melodias mais tranquilas. As esperanças em frangalhos não permitem que me agarre a qualquer ilusão. Continuo sem querer responder perguntas, fugindo das verdades incômodas e tentando fazer do dia um recanto para ficar sem você. Faz tanto tempo e você ainda ocupa um espaço tão seu. Acordo assustada.