
No acalanto da dança ela achou o que nem sabia que
procurava, testou limites, ganhou confiança, descobriu um espaço só seu. Pernas
que alcançam mais que o chão. Braços que podem desenhar linhas que tocam o
infinito. E com os giros soube como é bom poder parar o tempo. Ao lado de uma
barra achou o equilíbrio que não se encontra fora da dança, subiu em pontas e
enxergou muito além. Em um salão encontrou em dois a conexão que não se
acha em um.
“Mas dançar com outra
pessoa, formando um par, é um ritual que exige uma espécie diferente de
sintonia. Olhos nos olhos, acerto de ritmo. Hora de confiar no que o parceiro
está propondo, confiar que será possível acompanhá-lo, confiar que não está
sendo ridículo nem submisso. (...) É uma espécie de conexão silenciosa, de
pacto, um outro jeito de fazer amor.” (Martha Medeiros)
Nunca precisou de plateia, de luzes ou palco, a
dança foi só dela por anos. Mas enfrentar o palco quando já não mais achava
possível a fez pensar que podia ir além, que ainda tinha um mundo todo a
desvendar em rodopios e pontas fora das salas de ensaio. Se não era sua maior
paixão, agora ocupava um lugar especial, talvez tardiamente, mas enfim
descobria o que o corpo pedia, como ele se movimentava, como era feliz ali,
como tudo era calmo, como era tão o seu lugar.