E
num emaranhado de memórias relembradas no auditório da escola eu conheci meu
pai menino. Não o homem grande, forte e sério que me acostumei ao longo dos
meus 30 anos, mas um garoto, que em meio às paredes do Colégio Batista Daniel
de La Touche voltou a ser a criança de anos antes. O portão verde, o muro alto,
a quadra que virou ginásio, o prédio que ganhou mais um andar, as grades que
não existiam. Assim, ele, 35 alunos e sete professores me contaram suas
lembranças. Meu pai me deixou entrar na memória dele, em suas saudosas e
carinhosas recordações. O orgulho da escola, dos amigos e de tudo que recebera
ali fez com que ele me levasse numa viagem de 2 mil km e por uns 50 anos de
história, ou mais, talvez.

Naqueles
discursos eu me emocionei, estudei a muitos km de distancia, mas ali eu assisti
uma parte da minha história, eu vi quem formou o meu pai. Em um discurso
inflamado e tomado de paixão, o agora procurador, na época o jogador orgulhoso do
time campeão de futsal Zé Cláudio, falou do respeito aos professores, valores,
das amizades, emprestando-se de grandes escritores brasileiros emocionou e
lembrou com uma ponta de tristeza dos amigos que partiram cedo demais, ali
dissemos “presente”.
Meu
pai faz parte dos que se distanciaram geograficamente, mas provo que a memória
e o coração ficaram em São Luiz. Ouvi sobre o basquete, sobre as puladas de
muro, as descidas a secretaria, até os picolés. Até o hino do
Batista eu conheci, em encontros etílicos dos maranhenses, até choravam,
saudade do estado querido e um pouco do efeito do álcool também. Alguns
nomes fizeram parte da minha infância. Pude dar rostos ainda menina,
outros só no encontro. Ouvi do amigo que se ele tivesse que escolher uma só
pessoa do grupo, a melhor pessoa, ele escolheria o meu pai. “Seu pai foi meu
primeiro amigo no Batista, ele me acolheu, sempre foi assim, eduicado e
corretíssimo, me emociono ao falar dele”. Os olhos dele encheram de lágrimas,
os meus também, e não pude dizer que o nome dele sempre me foi falado com muito
carinho, desde criança ouvi o nome Elias Haichel por aqui.
E
veio o acaso ao descobrir que memórias e caminhos entrelaçados chegaram aos
bancos da Universidade de Brasília, e me colocam na mesma disciplina do filho
da Ana Lília, a amiga de escola do meu pai. Assim, revisitei eu as memórias,
revisei as teorias, busquei o arcabouço teórico historiográfico para escrever a
importância da memória, a deles, da turma de 1976 e da minha. Meu pai me ensinou
a importância da educação, foi no Colégio Batista que aprendeu sobre o valor do
conhecimento e se tornou a pessoa mais íntegra e ética que conheço. Me senti honrada,
e orgulhosa, em poder descobrir meu pai menino.
Acontecimentos
são espumas, o que interessa ao fim são as mudanças culturais geradas a partir
deles, a história se constrói muito além de fatos. Parabéns e obrigada turma de
1976, são muito mais que 40 anos de história, os senhores esmaeceram os
limites.