Como boa historiadora, penso em contextos, nada faz sentido
quando retirado de sua realidade social. Seguindo esse raciocínio, faço minha
reflexão sobre esse 20 de Novembro, Dia da Consciência Negra. Há pouco, foi
perguntada a minha opinião sobre o trecho retirado da entrevista do ator
americano Morgam Freeman em que ele se opõe ao “Black History Day” e concluo
que no constructo social que ele vive a colocação faz sentido, no Brasil,
talvez não, em função de percursos e tragetórias.
O processo de colonização americano criou um país com
diversas organizações econômicas. As colônias do norte que se mantiam voltadas ao
mercado interno e com uma industrialização incipiente e as do sul que se
baseavam na agroexportação e na mão de obra escrava. Essas diferenças gerariam a Guerra de Secessão anos mais
tarde, deixando marcas de separação que refletem até os dias atuais. A luta pelos direitos civis e contra um regime
opressor e segregacionista - que renegava o direito a sentar em bancos de ônibus,
de ingressar na universidade ou ao voto - são evidências de uma tragetória
marcada por conflitos. Assim, era estabelecido, os brancos de um lado e os negros
de outro, de preferência em um lado bem longe. Movimentos com luta armada como
o Black Power e o Black Panthers ou a
liderança pacífica de Martin Luther King e o famoso “i have a dream” que lhe
renderia o Prêmio Nobel em 1964 se tornaram famosos no mundo todo.
No Brasil, o percurso histórico dos negros se difere, não tivemos
segregação explicita. Nossa questão está na construção do imaginário popular
sobre os negros, a mesma ideia lusitana do negro forte, de sexualidade
exacerbada, do exótico. O negro visto como a raça inferior, incapaz, imagem
incrustada na população e um preconceito silencioso, com a sombra de uma
democracia racial, de um país com origem sincrética e agregador. Segundo dados
do IBGE, o tráfico de escravos trouxe
quase dois milhões de negros para o país e trezentos anos depois, o fim do
regime escravista colocou toda essa população à margem da sociedade, sem colocação
no mercado, sem educação, sem moradia e sem qualquer proteção à subsistência. A reforma Pereira Passos e o processo de higienização
da cidade deram início a formação das favelas cariocas, majoritariamente
negras, que se transformariam em grandes problemas de governo anos mais tarde.
Atualmente, o preconceito se dá pela via econômico-social
por aqui, não necessariamente pela cor da pele, há um racismo velado, que se
esconde. Mas o problema está presente nos números, os indicadores mostram que as
maiores taxas de anafalbetismo, desemprego, evasão escolar, violência,
mortalidade e outras se encontram na população negra. O último censo do IBGE
trouxe uma quebra de paradigmas, 52% da população se declarou negra ou parda.
Sempre soubemos esse dado no senso comum, mas a novidade é a identificação, o
critério do censo é a auto-declaração, ou seja pela primeira vez a “raça”negra
perde o caráter pejorativo e inferior e as pessoas querem ser ligadas a ela, se
“assumem”.
São para reflexos desse tipo que no país se trabalha com
ações afirmativas, como a política de cotas, uma vez que 58% das pessoas no
Brasil mantém a mesma posição social de uma geração par outra, se considerarmos
as taxas de destribuição de renda entedemos a gravidade da situação. Em abril
desse ano, o STF validou as cotas. O argumento que cota é reafirmação do
preconceito e absolutamente vazio quando não se conhece os indicadores sociais
do país. Não se pode falar em equidade quando mais da metade da população do
país é negra e eu só tinha dois sentados comigo no banco da faculdade .
Não chame Morgan de blackman porque de fato, não o define,
queremos sumir com os esteriótipos engessadores. Mas por aqui, prefiro que me
chame de preta, porque não quero o morena- claro, jambo ou escura, não me
ofende, me enobrece. Quero meu cabelo enrolado e meu nariz de batata. Não quero
ser igual, quero os mesmos direitos. Quero melhores taxas quando estudar os
indicadores sociais do país. Como boa historiadora, só quero um contexto mais
favorável, melhores realidades e que o sonho possa ser concretizado, não um
dia, mas agora. Feliz Dia da Consciência Negra!