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Foto: Katie Joy Crawford |
Um dia eu me afoguei. Não foi como quando se aprende a nadar
e engole um pouco de água, foi a sensação de ter uma parte importante se
esvaindo, de não mais ser capaz de controlar o próprio corpo, não mais era dona
da minha respiração. Não me afundei em uma piscina, tão pouco em águas abertas,
me perdi em ansiedade, deixei que ela me dominasse a ponto de não mais
conseguir emergir sozinha. Assim dei entrada no hospital, depois de um quase
dois dias sem comer, vomitando tudo que eu não mais era capaz de aceitar ou
digerir. Não era fisiológico, o quadro: transtorno de ansiedade. Minha mente
tinha vencido o corpo.
Uma série americana chamada Suits me fez um enorme favor e
representou em detalhes os meus ataques de pânico. O personagem principal, o
poderoso advogado Harvey Specter, no início de uma das temporadas, sofre uma
crise de ansiedade, passa a dormir mal, tem pesadelos recorrentes e episódios
de pânico que o fazem ficar tonto, enjoado e vomitar. Me vi ali, em detalhes,
até as broncas da terapeuta eram as mesmas. Sim, até o mais poderoso dos
advogados pode ter transtorno de ansiedade. Ficou mais fácil explicar o que eu tive
e entender que o problema era, e é, uma questão de saúde pública, não só meu.
Aprendi uma metáfora bastante elucidativa com um dos grandes
profissionais que conheci, exemplifica perfeitamente o que é a ansiedade. Ela
não é vilã, pelo contrário, ela nos é útil, nos deixa alerta, com sistema
sensorial mais apurado. Veja a cena: noite, escuro, um beco, você está sozinho
e vem dois homens com facas; sua ansiedade é bastante necessária, perigo
iminente. Mas precisa estar funcionando bem. Pense no alarme de um carro, ele é
feito para disparar em situações adversas, de risco, mas se passa a disparar
quando um passarinho canta, está claramente desregulado. Eis o transtorno, a ansiedade fora de
controle.
Muito mais que entender tudo isso é admitir que assim como
não há osso que não quebre a uma determinada tensão, também não há mente que
não rache a determinados níveis de stress. Mas aprendemos a ignorar os sinais
do corpo, eu aprendi pelo menos, porque eu precisava ser invencível, não
importasse a adversidade. Abri o peito para tudo, sem muita defesa, até punção
para checar um tumor na mama eu fui fazer sozinha, afinal o problema era meu, eu
tinha que resolver, mais ninguém precisava ser envolvido. E fui assim a vida
toda, carreguei todas as minhas pedras e cruzes sem pedir apoio, mesmo que o
suporte estivesse pronto pra mim.
Com ego destroçado e moral no chão eu me fechei em um
micromundo e quando uma semana depois eu finalmente recebi alta eu não tinha
certeza se queria ver o mundo, se queria voltar à realidade. Ali, paralisada de
medo naquele corredor, pensando que nunca mais eu iria me recuperar, nunca mais
seria forte de novo. Me vi com cinco quilos a menos, alguns hematomas de veias
estouradas e aboluto pavor de dormir. De lá direto pro consultório da
psicológa, admiti que sozinha seria impossóvel.
Venci meus preconceitose encarei a sala de espera de um
psiquiatra, mal sabia o quanto eu ia aprender naquela sala. Precisei aceitar
quando ele disse que eu precisaria de remédios. Admitir que logo eu, que nem
alcool bebo, ia precisar de drogas para dormir e para acordar. Mas a hora de
dormir tinha virado um pesadelo, era disparada a pior hora do dia, a condição
me fez aceitar. E com toda a calma que lhe foi peculiar, ele me explicou que era
um perfil que precisava de alterações, minha força ainda estava no mesmo
lugar, por mais que eu duvidasse bastante.
Nunca soube ser meio, sempre fui pro enfrentamento, tudo ou
nada em todas as situações. Nunca fui boa em confiar nas pessoas, não confiar
me protegia, ou essa era a minha lógica. A verdade é que tentei responder por
mim e pelos outros o tempo todo, me decepcionei incontadas as vezes e ignorei
todas elas. Errar nunca me foi permitido, eu nunca aceitei. A necessidade de
controle e de informação se tornaram profissão, prever variáveis, planejar. Construí
um muro bastante alto ao meu redor, fiz uma fortaleza em mim, até que ela foi ruindo,
porque ser ilha é uma ilusão. E ninguém quer falar que quebrou, ninguém quer
ser vulnerável, eu não queria.
Dedici retomar o meu controle, olhar pra dentro em vez de culpar
o Universo. Reconheci minhas falhas, fui eu que me coloquei naquele hospital. Parei
de fugir, vivi meus conflitos, encarei meus demônios, magoeei algumas pessoas
pelo caminho, mas era uma trajetória que eu precisava atravessar. Recebi muito
conforto, nem sabia que tanta gente se importava comigo e essa parte é algo que
não se esquece, cada mensagem, cada ligação, cada visita. Lembro em detalhes do
dia que consegui voltar ao trabalho e a crise de choro na entrada do prédio, um
misto de alívio e pavor.
Ironia ou não, de tanto querer controlar tudo, eu perdi o
controle. De tanto me forçar a ser sozinha, precisei de um monte de gente. Eu
deixei a água da ansiedade subir, mas também fui eu quem fez ela descer. Tive
uma rede de excelentes profissionais ao meu redor. A proteção que eu achava tão
capaz de me prover veio de fora. Me achei de volta no meu mundo, reconstruí meu
mundo. Um ano e meio depois, já livre dos remédios, com alta, entendo o quanto
o processo foi doloroso, é verdade, mas absolutamente necessário. Fiz as pazes
com a coragem, achei força pra não mais submergir. Me despi de muito
preconceitos, me livrei de peso que eu carregava sem precisar. Me fiz leve. Um
dia eu desafoguei.